segunda-feira, 21 de março de 2011

Hebreus Antigos e Moralidade Contemporânea


Reproduzo abaixo o sétimo capítulo da obra do biólogo Richard Dawkins, "Deus, um delírio". Sua prévia leitura é fundamental para a atividade complementar de quarta-feira.


Abraços,
Murilo



7. O livro do “Bem” e o Zeitgeist moral mutante

A política já matou uns bons milhares, mas a religião já matou umas boas dezenas de milhares.
Sean O’ Casey


Existem duas maneiras pelas quais as Escrituras podem servir de fonte para os princípios morais ou normas para a vida. Uma é por instrução direta, como por exemplo com os Dez Mandamentos, que são objeto de tanta briga nas guerras culturais do interiorão americano. A outra é pelo exemplo: Deus, ou algum outro personagem bíblico, pode servir como alguém em quem se espelhar. Os dois caminhos escriturais, se seguidos religiosamente (o advérbio está sendo usado em seu sentido metafórico, mas lembrando sua origem), incentivam um sistema de princípios morais que qualquer pessoa moderna e civilizada, seja ela religiosa ou não, acharia — não tenho como dizer de modo mais delicado — repulsivo.

É preciso dizer, para ser justo, que grande parte da Bíblia não é sistematicamente cruel, mas simplesmente estranha, como seria de esperar de uma antologia caótica de documentos desconjuntados, escrita, revisada, traduzida, distorcida e "melhorada" por centenas de autores anónimos, editores e copiadores, que desconhecemos e que não se conheciam entre si, ao longo de nove séculos. Isso pode explicar uma parte das esquisitices da Bíblia. Mas infelizmente é esse mesmo volume estranho que fanáticos religiosos consideram a fonte infalível de nossos princípios morais e nossas normas para viver. Quem pretende basear sua moralidade literalmente na Bíblia ou nunca a leu ou não a entendeu, como observou bem o bispo John Shelby Spong, em The sins of scripture [Os pecados das Escrituras]. O bispo Spong, aliás, é um bom exemplo de um bispo liberal cujas crenças são tão avançadas que chegam a ser quase irreconhecíveis para a maioria dos que se autodenominam cristãos. Um equivalente britânico é Richard Holloway, que se aposentou recentemente como bispo de Edimburgo. O bispo Holloway chega a se descrever como um "cristão em recuperação". Mantive uma discussão pública com ele em Edimburgo, que foi um dos encontros mais estimulantes e interessantes que já tive.


O ANTIGO TESTAMENTO


Comece no Gênesis com a adorada história de Noé, derivada do mito babilónico de Uta-Napishtim e conhecida em mitologias mais antigas de várias culturas. A lenda dos animais entrando na arca aos pares é linda, mas a moral da história de Noé é assustadora. Deus condenou os seres humanos e resolveu (com a exceção de uma família) afogar todos eles, incluindo as crianças, e também, por via das dúvidas, o resto dos animais (presumivelmente inocentes).

É claro que os teólogos, irritados, protestarão dizendo que não se interpreta mais o livro do Gênesis em termos literais. Mas é exatamente isso que estou dizendo! Escolhemos em que pedacinhos das Escrituras devemos acreditar, e quais pedacinhos descartar, por símbolos ou alegorias. Essa escolha é uma decisão pessoal, tanto quanto a decisão do ateu de seguir este ou aquele preceito moral foi uma decisão pessoal, sem nenhum fundamento absoluto. Se uma coisa é "moralidade a olho", a outra também é.

De qualquer maneira, apesar das boas intenções do teólogo sofisticado, um número assustadoramente grande de pessoas ainda interpreta as Escrituras, incluindo a história de Noé, de forma literal. De acordo com o Gallup, entre elas estão aproximadamente 50% do eleitorado dos Estados Unidos. Também estão, sem dúvida, muitos dos religiosos asiáticos que atribuíram o tsunami de 2004 não a um movimento tectônico, mas aos pecados humanos, desde a bebida e a dança nos bares até a violação de alguma regra estúpida do Shabat. Afundados na história de Noé e ignorantes de tudo o que não seja o aprendizado bíblico, como podemos condená-los? Toda a educação deles levou-os a encarar os desastres naturais como coisas ligadas aos problemas humanos, castigos pelas infrações humanas, e não algo tão impessoal como placas tectônicas. Aliás, que egocentrismo presunçoso é acreditar que eventos sismológicos, da escala em que um deus (ou uma placa tectônica) tem de atuar, sempre têm de estar conectados aos seres humanos. Por que um ser divino, preocupado com a criação e a eternidade, iria se incomodar com as transgressõezinhas dos homens? Nós, seres humanos, damo-nos tanta importância que até elevamos nossos minúsculos "pecadilhos" ao nível de relevância cósmica!

Quando entrevistei, para a televisão, o reverendo Michael Bray, um proeminente ativista americano antiaborto, perguntei a ele por que os cristãos evangélicos são tão obcecados pelas inclinações sexuais pessoais como a homossexualidade, que não interferem na vida de mais ninguém. A resposta dele invocava certa autodefesa. Cidadãos inocentes correm o risco de se transformar em danos colaterais quando Deus resolver fazer um desastre natural atingir uma cidade porque ela abriga pecadores. Em 2005, a bela cidade de Nova Orleans foi catastroficamente inundada depois da passagem de um furacão, o Katrina. Houve registros de que o reverendo Pat Robertson, um dos televangelis-tas mais conhecidos dos Estados Unidos, que já foi candidato a presidente, responsabilizou uma comediante lésbica que por acaso morava em Nova Orleans pelo furacão.* Era de esperar que um Deus onipotente adotasse uma abordagem um pouco mais pre-cisa para destruir pecadores: um infarto discreto, talvez, em vez da destruição a granel de uma cidade inteira só porque calhou de ela ser o domicílio de uma comediante lésbica.

* Não está claro se a história, que teve origem em http://datelinehollywood.com/ archives/2005/09/05/robertson-blames-hurricane-on-choice-of-ellen-deneres-to-host-emmys/, é verdadeira. Verdadeira ou não, muita gente acredita nela, sem dúvida porque é bem típica das afirmações do clero evangélico, incluindo Robertson, sobre desastres como o Katrina. Veja, por exemplo, www.emediawire. com/releases/2005/9/emw281940.htm. O site que diz que a história sobre o Katrina é falsa (www.snopes.com/katrina/satire/robertson.asp) também cita uma declaração anterior de Robertson, sobre uma Parada do Orgulho Gay em Orlando, na Flórida: "Alerto Orlando de que vocês estão bem no caminho de belos furacões, e eu não agitaria essas bandeiras no nariz de Deus se fosse vocês".

Em novembro de 2005, os cidadãos de Dover, na Pensilvânia, derrubaram pelo voto, da diretoria da escola local, a lista inteira de fundamentalistas que havia dado notoriedade à cidade, para não dizer ridicularizado-a, ao tentar tornar obrigatório o ensino do design inteligente. Quando Pat Roberson soube que os fundamentalistas tinham sido democraticamente derrotados nas urnas, fez uma séria advertência a Dover:

"Gostaria de dizer aos bons cidadãos de Dover que, se houver um desastre em sua região, não apelem a Deus. Vocês acabaram de rejeitá-lo de sua cidade, e não questionem por que ele não os ajudou quando os problemas começarem, se eles começarem, e não estou dizendo que vão começar. Mas, se começarem, lembrem-se de que vocês acabaram de votar para que Deus deixasse sua cidade. E, se isso acontecer, não peçam a ajuda dele, porque ele pode não estar lá."

Pat Robertson seria só uma piada inofensiva se fosse menos representativo daqueles que hoje são os detentores do poder e da influência nos Estados Unidos.

Na destruição de Sodoma e Gomorra, o equivalente a Noé, escolhido para ser poupado junto com sua família por ser especialmente correto, foi Ló, sobrinho de Abraão. Dois anjos foram enviados a Sodoma para avisar Ló e dizer que ele saísse da cidade antes da chegada do enxofre. Ló recebeu os anjos com hospitalidade, e então todos os homens de Sodoma reuniram-se em torno da casa dele e exigiram que Ló entregasse os anjos para que eles pudessem (o que mais?) sodomizá-los: "Onde estão os homens que vieram para tua casa esta noite? Traze-os para que deles abusemos" (Gênesis 19, 5). A bravura de Ló ao recusar-se a ceder à exigência sugere que Deus deve até ter tido razão ao considerá-lo o único homem de bem de Sodoma. Mas a auréola de Ló fica manchada com os termos de sua recusa: "Rogo-vos, meus irmãos, que não façais mal; tenho duas filhas, virgens, e vo-las trarei; tratai-as como vos parecer, porém nada façais a estes homens, porquanto se acham sob a proteção de meu teto" (Gênesis 19, 7-8).

Por mais estranha que a história possa parecer, ela certamente nos indica alguma coisa sobre o respeito reservado às mulheres nessa cultura intensamente religiosa. No final, a oferta que Ló fez da virgindade de suas filhas mostrou-se desnecessária, pois os anjos conseguiram afastar os agressores cegando-os por milagre. Eles então advertiram Ló para que partisse imediatamente com sua família e seus animais, porque a cidade estava prestes a ser destruída. A família inteira escapou, com a exceção da pobre mulher de Ló, que o Senhor transformou num pilar de sal por ter cometido a ofensa — relativamente leve, seria de imaginar — de olhar para trás para ver os fogos de artifício.

As duas filhas de Ló fazem uma breve reaparição na história. Depois de a mãe delas ter sido transformada num pilar de sal, elas moram com o pai numa caverna, no alto de uma montanha. Carentes de companhia masculina, elas decidem embebedar o pai e copular com ele. Ló não percebeu quando sua filha mais velha chegou a sua cama ou quando saiu dela, mas não estava bêbado demais para engravidá-la. Na noite seguinte as duas filhas combinaram que era a vez da mais nova. Novamente Ló estava bêbado demais para perceber, e a engravidou também (Gênesis 19, 31-36). Se essa família tão perturbada era o melhor que Sodoma tinha a oferecer em termos de princípios morais, dá até para começar a sentir certa solidariedade para com Deus e seu enxofre punitivo.

A história de Ló e os sodomitas ressoa de forma assustadora no capítulo 19 do livro dos Juizes, quando um levita (padre) não identificado viajava com sua concubina em Jebus. Eles passaram a noite na casa de um velho hospitaleiro. Enquanto jantavam, os homens da cidade chegaram e bateram à porta, exigindo que o velho entregasse seu convidado "para que dele abusemos". Praticamente com as mesmas palavras de Ló, o velho disse: "Não, irmãos meus, não façais semelhante mal; já que o homem está em minha casa, não façais tal loucura. Minha filha virgem e a concubina dele trarei para fora; humilhai-as e fazei delas o que melhor vos agrade; porém a este homem não façais semelhante loucura" (Juizes 19, 23-24). Aparece novamente o ethos misógino, firme e forte. Acho o termo "humilhai-as" especialmente aterrador. Divirtam-se humilhando e estuprando minha filha e a concubina desse padre, mas mostrem o devido respeito por meu convidado, que, afinal de contas, é homem. Apesar da semelhança entre as duas histórias, o dénouement foi menos feliz para a con-cubina do levita que para as filhas de Ló.

O levita a entrega à multidão, que a estupra coletivamente a noite inteira: "E eles a forçaram e abusaram dela toda a noite até pela manhã; e, subindo a alva, a deixaram. Ao romper da manhã, vindo a mulher, caiu à porta da casa do homem, onde estava o seu senhor, e ali ficou até que se fez dia claro" (Juizes 19, 25-26). De manhã, o levita encontra a concubina prostrada na porta e diz, com o que hoje consideraríamos de uma aspereza insensível: "Levanta-te, e vamos". Mas ela não se moveu. Estava morta. Então ele "tomou de um cutelo e, pegando a concubina, a despedaçou por seus ossos em doze partes; e as enviou por todos os limites de Israel". Sim, você leu certo. Pode olhar em Juizes 19, 29. Caridosamente, atribuamos de novo tudo isso à esquisitice oni-presente da Bíblia. De fato, a história não é tão completamente maluca quanto parece. Havia um motivo — provocar vingança — e deu resultado, pois o incidente causou uma guerra de desforra contra a tribo de Benjamim, na qual, como o capítulo 20 de Juizes ternamente registra, mais de 60 mil homens foram mortos. Essa história é tão parecida com a de Ló que não dá para não especular se algum fragmento do manuscrito sem querer não se misturou em algum escritório esquecido de um monastério: uma ilustração da proveniência errática dos textos sagrados.

O tio de Ló, Abraão, foi o pai fundador de todas as três "grandes" religiões monoteístas. Seu status patriarcal faz com que ele possa ser considerado um exemplo a ser tomado, quase como Deus. Mas que moralista moderno ia querer seguir seu exemplo? Relativamente cedo em sua vida longa, Abraão foi para o Egito para fugir da fome, com sua mulher, Sara. Ele percebeu que urna mulher tão bonita seria cobiçada pelos egípcios e que portanto sua própria vida, como marido dela, poderia ficar em perigo. Então decidiu fazê-la passar por sua irmã. Como tal, ela foi levada para o harém do faraó, e Abraão, em conseqüência, enriqueceu com o favorecimento do faraó. Deus desaprovou o pequeno arranjo, e enviou pragas sobre o faraó e sua casa (por que não sobre Abraão?). O faraó, compreensivelmente nervoso, exigiu saber por que Abraão não lhe contara que Sara era sua mulher. Ele então a devolveu a Abraão e expulsou os dois do Egito (Gênesis 12, 18-19). O estranho é que aparentemente o casal tentou usar o mesmo golpe de novo, dessa vez com Abimeleque, rei de Gerar. Também ele foi induzido por Abraão a casar-se com Sara, novamente tendo sido levado a crer que ela era irmã de Abraão, não mulher dele (Gênesis 20, 2-5). Também ele manifestou sua indignação, em termos quase idênticos aos do faraó, e é difícil não se solidarizar com os dois. Seria a semelhança uma outra indicação da falta de confiabilidade do texto?

Esses episódios desagradáveis da história de Abraão não passam de pecadilhos se comparados à infame lenda do sacrifício de seu filho Isaac (as escrituras muçulmanas contam a mesma história sobre o outro filho de Abraão, Ismael). Deus determinou que Abraão transformasse seu filho querido numa oferenda em forma de fogo. Abraão construiu um altar, colocou lenha sobre ele e amarrou Isaac sobre a lenha. A faca assassina já estava em sua mão quando um anjo interveio dramaticamente, com a notícia de uma mudança de planos de última hora: Deus estava apenas brincando, no fim das contas, "tentando" Abraão e testando sua fé. Um moralista moderno não poderia deixar de imaginar como uma criança conseguiria se recuperar de tamanho trauma psicológico. Pelos padrões da moralidade moderna, essa história vergonhosa é ao mesmo tempo um exemplo de abuso infantil, intimidação em dois relacionamentos assimétricos de poder e o primeiro uso registrado da defesa de Nuremberg: "Eu só estava seguindo ordens". Mesmo assim, a lenda é um dos grandes mitos fundadores das três religiões monoteístas.

Mais uma vez, os teólogos modernos protestarão dizendo que a história do sacrifício de Isaac por Abraão não deve ser encarada como um fato literal. E, mais uma vez, a resposta adequada tem dois lados. Em primeiro lugar, muitíssima gente, até hoje, encara, sim, as Escrituras como fatos literais, e elas têm bastante poder político sobre o resto de nós, especialmente nos Estados Unidos e no mundo islâmico. Em segundo, se não for como fato literal, como deveríamos encarar a história? Como uma alegoria? Alegoria de quê, então? Certamente de nada digno de louvor. Como lição moral? Mas que tipo de princípio moral pode-se tirar dessa história apavorante? Lembre-se de que só estou tentando dizer, por enquanto, que na verdade nós não retiramos nossos princípios morais das Escrituras. Ou, se retiramos, escolhemos os trechos mais agradáveis daqueles textos e rejeitamos os desagradáveis. Mas aí precisamos ter algum critério independente para decidir quais trechos são os morais: um critério que, venha de onde vier, não pode vir da própria escritura, e está supostamente disponível para todos nós, sejamos ou não religiosos.

Os apologistas bem que tentam resgatar alguma decência para o personagem Deus nessa história deplorável. Não foi bom que Deus tenha poupado a vida de Isaac no último minuto? Na improvável possibilidade de algum de meus leitores ter sido convencido por esse exemplar obsceno de alegação, indico a ele outra história sobre o sacrifício humano, que teve um final mais infeliz. Em Juízes, capítulo 11, o líder militar Jefté fez uma troca com Deus combinando que, se Deus garantisse a vitória de Jefté sobre os amonitas, Jefté sacrificaria, sem falta, na fogueira, "aquele que sair primeiro da porta da minha casa e vier ao meu encontro, voltando eu". Jefté tinha mesmo a intenção de derrotar os amonitas ("uma grande derrota") e voltou para casa vitorioso. Como era de esperar, sua filha, única filha, saiu da casa para recebê-lo (com tambores e com danças) e — que pena — foi a primeira a da porta sair. Jefté rasgou suas roupas, compreensivel-mente, mas não havia nada que ele pudesse fazer. Deus estava obviamente ansioso pela oferenda prometida, e dadas as circunstâncias a filha, respeitosamente, concordou em ser sacrificada. Ela só pediu permissão para ficar dois meses nas montanhas para lamentar sua virgindade. Ao fim desse período ela voltou, obediente, e Jefté a cozinhou. Deus não achou por bem intervir nesse caso. A ira monumental de Deus sempre que seu povo flertava com um deus rival remete ao pior tipo de ciúme sexual, e novamente não deve parecer a um moralista moderno um exemplo a ser seguido. A tentação da infidelidade sexual é prontamente compreensível, mesmo para aqueles que não sucumbem a ela, e está sempre presente na ficção e na dramaturgia, de Shakespeare às farsas. Mas a tentação aparentemente irresistível de nos prosti-tuir com deuses estranhos é algo com que nós, modernos, temos dificuldade de nos solidarizar. Aos meus olhos ingénuos, "Amar a Deus sobre todas as coisas" seria um mandamento de fácil cumprimento: uma moleza, pode-se pensar, perto de "Não cobiçarás a mulher do próximo". Mesmo assim, em todo o Antigo Testamento, com a mesma regularidade previsível que numa farsa, basta Deus virar as costas por um minuto para os Filhos de Israel irem atrás de Baal, ou de alguma imagem esculpida.* Ou, numa ocasião calamitosa, um bezerro de ouro...

* Essa idéia engraçadíssima me foi sugerida por Jonathan Miller, que, surpreendentemente, não a incluiu num esquete de Beyond the Fringe. Também lhe sou grato pela recomendação do livro académico em que ela se baseia: Halbertal e Margalit (1992).

Moisés, ainda mais que Abraão, é um candidato a exemplo para os seguidores de todas as três religiões monoteístas. Abraão pode ser o patriarca original, mas, se alguém deve ser chamado de fundador doutrinário do judaísmo e das religiões que derivaram dele, esse alguém é Moisés. Quando do episódio do bezerro de ouro, Moisés estava longe dali, em segurança, a caminho do monte Sinai, em comunhão com Deus e recebendo as tábuas de pedra esculpidas por ele. As pessoas lá embaixo (que estavam proibidas até de encostar na montanha sob pena de serem mortas) não perderam tempo:

Mas, vendo o povo que Moisés tardava em descer do monte, acercou-se de Arão e lhe disse: Levanta-te, faze-nos deuses que vão adiante de nós; pois, quanto a este Moisés, o homem que nos tirou do Egito, não sabemos o que lhe terá sucedido. (Êxodo 32, 1)

Arão conseguiu com que todos juntassem seu ouro, derreteu-o e fez um bezerro de ouro, divindade recém-inventada para a qual ele construiu então um altar, para que todos pudessem começar a fazer sacrifícios em nome dele.

Bem, eles já deviam saber que não se podem fazer essas coisas assim, pelas costas de Deus. Ele pode estar lá no alto de uma montanha, mas é, afinal de contas, onisciente, e não perdeu tempo para despachar Moisés como seu policial. Moisés desceu a montanha correndo, carregando as tábuas de pedra em que Deus havia escrito os Dez Mandamentos. Quando chegou e viu o bezerro de ouro, ficou tão furioso que derrubou as tábuas e as quebrou (depois Deus lhe deu peças de reposição, então não houve problema). Moisés pegou o bezerro de ouro, queimou-o, reduziu-o a pó, misturou-o com água e fez que as pessoas o engolissem. Depois disse a todo mundo na devota tribo de Levi que pegasse uma espada e matasse o máximo de gente possível. O montante chegou a 3 mil, o que, seria de esperar, já devia ser o suficiente para apaziguar a ira ciumenta de Deus. Mas não, Deus ainda não estava satisfeito. No último verso desse terrível capítulo, seu golpe de despedida foi lançar uma praga contra as pessoas que haviam sobrado, "porque fizeram o bezerro que Arão fabricara".

O livro dos Números conta como Deus incitou Moisés a atacar os midianitas. Seu exército tratou de matar todos os homens, e incendiar todas as cidades midianitas, mas poupou as mulheres e as crianças. Esse comedimento piedoso dos soldados enfureceu Moisés, e ele ordenou que todos os meninos fossem mortos, e todas as mulheres que não fossem virgens."Porém todas as meninas, e as jovens que não coabitaram com algum homem, deitando-se com ele, deixai-as viver para vós outros" (Números 31, 18). Não, Moisés não era uma pessoa digna de ser tomada como exemplo por moralistas modernos.

Quando os autores religiosos modernos associam algum significado simbólico ou alegórico ao massacre dos midianitas, o simbolismo vai na direção errada. Os pobres midianitas, pelo menos pelo que dá para saber pelo relato bíblico, foram vítimas de um genocídio em suas próprias terras. Mas seu nome só sobrevive na doutrina cristã naquele hino famoso (que ainda consigo cantar de cor depois de cinqüenta anos, em duas melodias diferentes, ambos em tons tristemente menores):

Cristão, tu os vê
No terreno sagrado?
Como os soldados de Mídian
Vagueiam e vagueiam por lá?
Cristão, levanta-te e ataca-os,
Contabilizando só os ganhos, não as perdas;
Ataca-os em nome Da sagrada cruz.

Coitados dos midianitas, massacrados e difamados, serão lembrados somente como símbolos poéticos da maldade universal num hino vitoriano.

O deus rival Baal parece ter sido sempre uma tentação sedutora para desviar a adoração. Em Números, no capítulo 25, muitos israelitas são convencidos por mulheres moabitas a se sacrificarem por Baal. Deus reage com sua fúria característica. Ele ordena a Moisés: "Toma todos os cabeças do povo, e enforca-os ao Senhor diante do sol, e o ardor da ira do Senhor se retirará de Israel". É impossível não se assombrar com a visão tão extraordinariamente draconiana que se tem do pecado de flertar com deuses rivais. Para nosso senso atual de valores e de justiça, ele parece um pecado pouco importante se comparado, por exemplo, a oferecer sua filha para uma gangue de estupradores. É mais um exemplo do distanciamento entre os princípios morais das Escrituras e os modernos (fica-se tentado a dizer civilizados). Ele é, claro, facilmente compreensível nos termos da teoria dos memes, e das características de que uma divindade precisa para sobreviver no universo memético.

A farsa tragicômica do ciúme maníaco de Deus contra outros deuses reaparece constantemente em todo o Antigo Testamento. Ela motiva os primeiros Dez Mandamentos (aqueles nas tábuas que Moisés quebrou: Êxodo 20, Deuteronômio 5), e é ainda mais proeminente nos mandamentos substitutos (bastante diferentes) que Deus entregou para substituir as tábuas quebradas (Êxodo 34). Depois de prometer expulsar de sua terra natal os infelizes amoritas, cananeus, eteus, perizeus, eveus e jebuseus, Deus vai ao que realmente interessa: deuses rivais!

[...] os seus altares derrubareis, e as suas estátuas quebrareis, e os seus bosques cortareis. Porque não te inclinarás diante de outro deus; pois o nome do Senhor é Zeloso; é um Deus zeloso. Para que não faças aliança com os moradores da terra, e quando eles se prostituírem após os seus deuses, ou sacrificarem aos seus deuses, tu, como convidado deles, comas também dos seus sacrifícios. E tomes mulheres das suas filhas para os teus filhos, e suas filhas, prostituindo-se com os seus deuses, façam que também teus filhos se prostituam com os seus deuses. Não te farás deuses de fundição. (Êxodo 34, 13-17)

Eu sei, eu sei, é claro, os tempos mudaram, e nenhum líder religioso de hoje em dia (tirando os do Talibã ou seus equivalentes cristãos americanos) pensa como Moisés. Mas é isso que estou dizendo. Tudo o que estou afirmando é que a moralidade moderna, venha de onde vier, não se origina da Bíblia. Os apologistas não podem sair pela tangente alegando que a religião fornece a eles alguma espécie de diretriz para definir o que é bom e o que é ruim — uma fonte privilegiada indisponível para os ateus. Eles não podem se safar dizendo isso, nem mesmo quando usam seu truque favorito, o de interpretar as Escrituras selecionadas como "simbólicas", e não literais. Por que critério alguém decide quais trechos são simbólicos e quais são literais? A limpeza étnica iniciada nos tempos de Moisés é elevada à fruição sangrenta no livro de Josué, um texto marcante pelos massacres sangrentos que registra e o apreço xenofóbico com que faz isso. Como diz aquela velha e bela canção, exultante: "Josué lutou na batalha de Jericó, e as muralhas ruíram [...] Não há ninguém como o velho e bom Josué, na batalha de Jericó".

O bom e velho Josué não sossegou enquanto "tudo quanto havia na cidade eles destruíram totalmente ao fio da espada, desde o homem até à mulher, desde o menino até ao velho, e até ao boi e gado miúdo, e ao jumento" (Josué 6,21).

Mais uma vez, protestarão os teólogos, isso não aconteceu de verdade. Não mesmo — segundo a história, as muralhas ruíram ao mero som dos homens gritando e tocando buzinas, portanto realmente não aconteceu de verdade —, mas não é essa a questão. A questão é que, verdade ou não, a Bíblia é mostrada a nós como a fonte de nossa moralidade. E a história bíblica da destruição de Jericó por Josué, e da invasão da Terra Prometida em geral, não se distingue em termos morais da invasão da Polônia por Hitler, ou dos massacres dos curdos e dos árabes dos pântanos do sul por Saddam Hussein. A Bíblia pode ser uma obra de ficção interessante e poética, mas não é o tipo de livro que deveria ser dado às crianças para formar seus princípios morais. Por sinal, a história de Josué em Jericó é tema de uma interessante experiência sobre a moralidade infantil, que será discutida mais para a frente neste capítulo.

Não pense, aliás, que o personagem Deus na história cultivou alguma dúvida ou escrúpulo sobre os massacres e genocídios que acompanharam a tomada da Terra Prometida. Suas ordens, pelo contrário, como mostra o exemplo em Deuteronômio 20, eram brutalmente explícitas. Ele fazia uma clara distinção entre as pessoas que viviam na terra que era requisitada e as pessoas que vivam distantes dela. Estas últimas deveriam ser convidadas a se render pacificamente. Se se recusassem, todos os homens deveriam ser mortos e as mulheres levadas para procriar. Num contraste com esse tratamento relativamente humano, veja o que era reservado àquelas tribos que tinham o azar de já residirem na Lebensraum prometida: "Quando o Senhor teu Deus te houver introduzido na terra, à qual vais para a possuir, e tiver lançado fora muitas nações de diante de ti, os eteus, e os girgaseus, e os amorreus, e os cananeus, e os perizeus, e os eveus, e os jebuseus, sete nações mais numerosas e mais poderosas do que ti, e o Senhor teu Deus as tiver dado diante de ti, para as ferir, totalmente as destruirás; não farás com elas aliança, nem terás piedade delas". Será que as pessoas que tomam a Bíblia como inspiração para a retidão moral têm alguma noção do que realmente está escrito nela? As seguintes ofensas merecem a pena de morte, de acordo com o Levítico 20: amaldiçoar os pais; cometer adultério; ter relações sexuais com a madrasta ou com a enteada; a homossexualidade, casar com uma mulher e com a filha dela; o bestia-lismo (e, como se já não fosse o bastante, o pobre animal deve ser morto também). Também é executado, é claro, quem trabalhar no Shabat: a questão é relembrada a toda hora em todo o Antigo Testamento. Em Números 15, os filhos de Israel encontram um homem apanhando lenha no dia proibido. Eles o prendem e então perguntam a Deus o que fazer com ele. Só que Deus não estava a fim de meias medidas naquele dia. "Tal homem será morto; toda a congregação o apedrejará fora do arraial. Levou-o, pois, toda a congregação para fora do arraial, e o apedrejaram; e ele morreu." Será que o inofensivo apanhador de lenha não tinha uma mulher e filhos para lamentar sua morte? Teria ele chorado de medo quando as primeiras pedras voaram, e gritado de dor enquanto a fuzilaria atingia sua cabeça? O que me choca hoje em dia nessas histórias não é que elas tenham acontecido de verdade. Provavelmente não aconteceram. O que me deixa de queixo caído é que as pessoas de hoje em dia queiram basear sua vida num exemplo tão aterrador quanto o de Javé — e, pior ainda, que queiram impor esse mesmo monstro do mal (seja ele fato ou ficção) ao resto de nós.

O poder político dos guardiães americanos dos Dez Mandamentos é especialmente lamentável naquela grande República, cuja Constituição, afinal de contas, foi elaborada por homens iluministas em termos estritamente laicos. Se levarmos os Dez Mandamentos a sério, teremos que classificar a adoração aos deuses errados, e a fabricação de imagens esculpidas, em primeiro e segundo lugar entre todos os pecados. Em vez de condenar o vandalismo inenarrável do Talibã, que dinamitou os Budas de 45 metros de altura de Bamiyan, nas montanhas do Afeganistão, nós os elogiaríamos por sua devoção. Aquilo que consideramos vandalismo por parte deles certamente foi motivado por um zelo religioso sincero. Esse fato é atestado em cores fortes por uma história bizarra, que foi destaque no The Independent (de Londres) de 6 de agosto de 2005. Sob a manchete "A destruição de Meca", na primeira página, o The Independent afirmou:

"A histórica Meca, o berço do islã, está sendo sepultada num massacre sem precedentes perpetrado por fanáticos religiosos. Quase tudo na rica e multifacetada história da cidade sagrada já se perdeu [...] Hoje a cidade natal do profeta Maomé enfrenta as escavadeiras, com a conivência de autoridades religiosas sauditas, cuja interpretação linha-dura do islã as está fazendo destruir seu próprio patrimônio [...] O motivo por trás da destruição é o medo fanático dos wahhabistas de que lugares de interesse histórico e religoso possam dar origem à idolatria ou ao politeísmo, à adoração de múltiplos deuses, potencialmente iguais. A prática da idolatria ainda é, na Arábia Saudita, em princípio, punível pela decapitação.”

Não acredito que haja um ateu no mundo que demoliria Meca — ou Chartres, a York Minster ou Notre Dame, o Shwedagon, os templos de Kyoto ou, claro, os Budas de Bamiyan. Como disse o físico americano e prémio Nobel Steven Weinberg, "a religião é um insulto à dignidade humana. Com ou sem ela, teríamos gente boa fazendo coisas boas e gente ruim fazendo coisas ruins. Mas, para que gente boa faça coisas ruins, é preciso a religião". Blaise Pascal (o da aposta) disse algo parecido: "Os homens nunca fazem o mal tão plenamente e com tanto entusiasmo como quando o fazem por convicção religiosa".

Meu principal objetivo aqui não foi mostrar que não devemos tirar nossos princípios morais das Escrituras (embora essa seja minha opinião). Meu objetivo foi demonstrar que nós (e isso inclui as pessoas religiosas) na verdade não tiramos nossos princípios morais das Escrituras. Se tirássemos, observaríamos estritamente o dia de descanso e acharíamos justo e adequado executar quem preferir não observá-lo. Apedrejaríamos até a morte uma noiva que não conseguisse provar sua virgindade, se o marido anunciasse estar insatisfeito com ela. Executaríamos crianças desobedientes. Mas espere aí. Talvez eu esteja sendo injusto. Os bons cristãos terão protestado durante todo este trecho: todo mundo sabe que o Antigo Testamento é bem desagradável. O Novo Testamento de Jesus desfaz o prejuízo e conserta tudo. Não é verdade?

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