terça-feira, 9 de novembro de 2010

O Cientista Azarado



O CIENTISTA AZARADO

Le Gentil perdeu o alinhamento de Vênus. E a fortuna. E a esposa. E as amantes. E a...

por Álvaro Oppermann, Revista Superinteressante, dez. 2004.

Três horas, 14 minutos e 7 segundos. No dia 4 de junho de 1769, esses 194 minutos serviram como linha de demarcação na vida do astrônomo Guillaume Le Gentil e o transformaram para sempre num dos cientistas mais azarados da história.

Nada indicava que isso ocorreria. Guillaume Joseph Hyacinthe Jean-Baptiste Le Gentil de la Galaisière era figura de prestígio na corte do rei Luís XVI. Recebeu diversas honrarias, entre elas a admissão na Academia Real de Ciências. Tinha tudo a que o francês médio aspirava: era rico, casado e também amante da copeira da casa. Depois, enamorou-se da filha de 15 anos da serviçal e tornou-se igualmente amante da jovem.

A sorte começou a mudar em 1760. Em 6 de junho do ano seguinte, o planeta Vênus se alinharia com o Sol pela primeira vez em um século. Era uma oportunidade única para a medição do corpo celeste. Le Gentil rumou para Pondicherry, colônia francesa na Índia e um dos lugares mais propícios no globo à observação do chamado “trânsito de Vênus”. Despediu-se da esposa (e das amantes) e embarcou numa aventura.

Partindo das terras européias, cruzou o cabo da Boa Esperança e, antes de chegar à Índia, fez uma parada nas Ilhas Maurício. Lá as notícias não eram boas: uma guerra estourara entre a França e a Inglaterra pelo controle do subcontinente indiano. A barra estava pesada em Pondicherry. Le Gentil mudou de planos e rumou para Coromandel, localidade próxima, também na Índia. Pouco antes de chegar ao local, ficou sabendo da vitória britânica e que quem falava fazendo biquinho não era mais bem-vindo na região. A fragata teve de retornar para as Ilhas Maurício. Quando chegou o tão esperado 6 de junho de 1761, o dia estava claro, mas Guillaume Le Gentil não pôde fazer nada: da embarcação em movimento era impossível fazer a observação.

Ainda não era hora de desistir. Um novo trânsito de Vênus aconteceria dali a oito anos. Tempo de sobra. Rumou para as Filipinas, onde foi hostilizado, e voltou para a já apaziguada Pondicherry. Nesse vaivém passaram-se sete anos. Com mais um pela frente até o evento celeste, construiu um observatório superequipado. No dia 4 de junho de 1769, estava a postos. No momento em que mirou o telescópio na direção de Vênus, perfeitamente alinhado com o Sol, uma nuvem se colocou bem defronte deles. E lá permaneceu pela duração do trânsito venusino: as fatídicas 3 horas, 14 minutos e 7 segundos.

Desesperado, ainda tentou rumar para um porto próximo. Não deu certo. Ganhou, isso sim, uma disenteria que o deixou um ano de cama. Fracassado e ainda doente, decidiu voltar para casa. No caminho, um tufão quase fez seu navio naufragar na costa africana.

Le Gentil chegou em Paris 11 anos e meio após ter partido. E tudo estava bem diferente. Declarado morto, sua cadeira na Academia Real fora tomada por outro cientista. A esposa, considerando-se viúva, tinha novo marido – e com os herdeiros dilapidou a pequena fortuna do astrônomo. Guillaume Le Gentil entrou para a história. Não exatamente como planejava, mas por causa de uma nuvem. Malditos 194 minutos!


"Pelo Prazer de Trair"

uma novela Renascentista.

Caros, segue link de texto que estará presente na nossa avaliação de sexta-feira, 12/11. Como verão, ele é um tanto extenso pra estar presente no corpo das provas, por isso deixemos sua leitura como exercício prévio para a avaliação.


Boa leitura e, principalmente, reflexão sobre o excerto.


Abraços!